Um Filho da Noite

Num quarto escuro, decorado por uma coleção velha de ursos de pelúcia, livros, CDs e posters de bandas de rock, um notebook ainda em funcionamento, ao lado de um porta-retratos em cima da escrivaninha, indicava um e-mail não enviado. A sua frente, uma silhueta imóvel, angelical, relia em voz baixa, para si mesma, as linhas ali escritas.

“Oi Jú! Como está por aí? Praia, Sol… nada mal não?! Bem que eu devia ter deixado os trabalhos um pouco de lado e ter ido com você e a Rê…

O tempo por aqui está bem ruim, desde sexta-feira que tem caído aquela garoazinha fina e chata que só chove e não molha. Além disso, está fazendo muito frio por aqui. Vi o termômetro hoje na rua e estava marcando 11 graus, mas a sensação é de bem menos. Aiii amiga… pena que você foi viajar, poderíamos estar nos divertindo juntas ou pelo menos não fazendo nada, mas juntas… estou com tanto medo… é que a luz acabou outra vez e como ainda é cedo para dormir, pensei em entrar na net para me distrair um pouco e deixar o tempo passar. Acho que sempre tive medo de ficar sozinha e ainda mais no escuro!

Eu até tranquei a porta do meu quarto agora. Meus pais também viajaram e eu fiquei aqui sozinha. Na verdade eu ainda estou tensa, estão acontecendo umas coisas desde sexta-feira que estão me deixando com muito medo, mas olha só, vou contar para você e aí você me diz se estou ou não pirando. Na sexta-feira, depois da aula, eu voltei para casa e fui para a academia.  Estava lotada e até então tudo bem, eu fiz tudo o que eu tinha para fazer e desci para ir embora. Coloquei meu casaco e quando pus o pé para fora da academia, eu ouvi alguém me chamar. Olhei para trás e não vi ninguém, mas quando eu virei para continuar andando, eu ouvi de novo. Me virei bem rápido, pois já estava assustada, e não consegui ver ninguém de novo. Tinha muita neblina. No começo achei que era coisa da minha cabeça para variar, mas aí, lá longe eu vi um cara todo estranho debaixo de um poste de luz. Ele tinha um chapéu e um casacão. Acho que era um sobretudo ou uma capa, sei lá.

Acontece que fiquei encarando o tal sujeito um tempo e, de repente, senti um calafrio. Fiquei com medo, pois achei que o cara fosse um assaltante e quando tentei correr para dentro da academia de novo, não sei porque, mas meu corpo inteiro travou. Não conseguia mais me mexer de tanto medo. Isso nunca tinha acontecido comigo antes, nem mesmo daquela vez que eu estava andando de bicicleta e aqueles dois cachorros saíram correndo da casa da velha e vieram com tudo pra cima de mim! Mas voltando, então, meu corpo travou e para piorar a rua estava deserta. Não tinha ninguém! Só eu e o cara lá longe. Mas daí, o cara começou a vir devagar na minha direção. Eu não conseguia ver ele direito no começo, mas conforme ele foi se aproximando, pude ver sua silhueta no meio da neblina. Aliás, muito estranha essa neblina, já moro aqui faz 7 anos e nunca tinha visto um dia assim.

De qualquer maneira eu queria correr e não conseguia e ele chegando cada vez mais perto, aí eu resolvi gritar, mas minha voz não saía. Meu… eu fiquei muito assustada naquela hora… e o cara chegando e chegando, mas mesmo assim eu ainda não conseguia ver seu rosto, mas eu vi que ele era bem magro e era meio corcunda também, mas o que me aterrorizou foram os olhos vermelhos dele. Bem sinistro o cara! De repente, quando eu já estava chorando de desespero, meu corpo destravou e eu subi correndo para a academia. Meu, mó mico, mas na hora eu nem pensei, cheguei gritando e todo mundo desceu comigo para ver o tal cara, mas até aí ele já tinha ido embora. Pior que eu liguei para casa para o meu pai vir me buscar, mas foi só ali que eu descobri que eles tinham ido viajar e nem me avisaram. O que me restou foi tomar coragem e ir embora para casa sozinha. Para variar estava sem carro, então tinha ido para a academia de bicicleta.

Mas ainda bem que não aconteceu nada na volta, mas você acredita que quando cheguei em casa ainda tomei um baita susto. Ouvi um barulhão na janela do meu quarto e me lembrei do cara na hora. Aí, eu fechei o vidro da janela e subi a persiana para ver o que era e tomei um susto maior ainda, era um morcego enorme que estava rodeando a minha casa e de vez em quando ele vinha e batia na minha janela. Desci a persiana, cobri minha cabeça com o cobertor e até rezei para que nada de mal me acontecesse (E se estou te escrevendo agora é porque todas as minhas preces foram ouvidas rsrs).

Nem preciso te falar que sonhei com um monte de coisas ruins né… sonhei que eu ia mal na prova, sonhei que meus pais despencavam com o carro de um penhasco, sonhei até com aquele cara… sonhei com os olhos daquele cara… mas graças a Deus a hora que ele apareceu no meu sonho eu acordei e já era de manhã! Não conta pra ninguém, mas eu acordei toda molhada, minha cama estava uma sopa e eu tive vontade de chorar. Demorou um bom tempo para eu esquecer aquela história, parar de tremer e aproveitar um pouco do dia. Mas cada vez que eu olhava no relógio e a noite se aproximava, meu medo vinha junto. Aiiii amiga… por quê você não está aqui? Meu, que medo. Só sei que nem saí de casa esse dia, jantei mais cedo, tranquei a casa inteira, fechei todas as janelas e me tranquei no meu quarto debaixo das cobertas para ficar vendo TV e esperar o sono chegar.

Ainda bem que nada de anormal me aconteceu nesse dia, exceto pelo morcegão que fica rodeando minha casa agora. Mas acho que eu e ele estamos nos tornando amigos rsrs. De qualquer maneira acordei super disposta hoje e apesar do Sol não ter aparecido, a chuva deu uma trégua e, a tarde, eu resolvi sair um pouco de bicicleta. Ainda estava muito frio, mas eu me agasalhei bem. No final das contas acho que estava precisando disso, porque estava tão gostoso andar que eu até perdi a noção do tempo. Tanto que quando eu dei por mim já estava quase escurecendo e eu estava um pouco longe de casa. Ai, como sou burra Jú. Vim o caminho inteiro dizendo isso para mim mesma. Pior que como é feriado não tem ninguém na rua… mas como diz aquele ditado antes só do que mal acompanhada, em outras palavras, preferia estar sozinha que com aquele cara bizarro. Aliás, eu via o rosto dele em tudo que era canto. Impressionante o que nossa mente faz com a gente quando estamos com medo.

Cheguei em casa sem problemas, mas aí outra coisa estranha aconteceu. A janela do quarto da minha mãe estava toda escancarada, com o vidro estilhaçado. Eu fiquei com muito medo que fosse aquele morcegão que tivesse entrado, tanto que eu peguei uma vassoura na cozinha e quando fui acender a luz, descobri que não tinha luz. ‘Mais essa agora!’ eu pensei. Estava com frio, morrendo de medo, cansada, com um morcegão podendo estar dentro de casa e sem luz. Ainda bem que estou com o meu celular velho e tem uma lanterna nele. Ele não tira foto, mas pelo menos tem uma lanterna rsrs. Fui subindo as escadas e meu plano era de sair correndo quando chegasse no andar de cima e ir direto para o meu quarto. Vim bem devagar e saí correndo gritando rsrs. Entrei no meu quarto, tranquei a porta e cá estou te enviando esse e-mail. Viva a tecnologia moderna rsrs . Nada que com um notebook e um wirelees a gente não resolva. Bom era isso, espero que você esteja se divertindo por aí, porquê eu não vejo a hora desse feriado acabar!

Beijos amiga!

Obs.: No próximo feriado vou querer ir com certeza com você! Muito melhor ficar aqui… aliás tem tanta gente estranha que fica por aqui e não vai viajar…”

Num quarto escuro, decorado por uma coleção velha de ursos de pelúcia, livros, CDs e posters de bandas de rock, um notebook ainda em funcionamento, ao lado de um porta-retratos em cima da escrivaninha, indicava um e-mail não enviado. A sua frente, uma silhueta imóvel, angelical, relia em voz baixa, para si mesma, as linhas ali escritas. Nunca imaginaria que à suas costas dois olhos fundos, de cor avermelhada, pairavam sobre ela. Uma criatura bizarra, curva, de pele esbranquiçada, observando seus últimos instantes.